quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

NOVO CÓDIGO FLORESTAL BRASILEIRO: UM TIRO NO PÉ

Além de perder dinheiro com o sequestro de carbono  (quase 2 bilhões
de dólares), o desperdício de madeira na forma como se exploram nossas
florestas é de 60 a 70%. Algumas mudanças propostas são ilógicas.
         O Deputado Federal Marco Maia (PT-RS) disse em sua primeira entrevista após a posse como presidente da Câmara que o PL – Projeto de Lei 1.876/99, de autoria do Deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) que prevê mudanças no Código Florestal (4.771/65), voltará a ser discutido durante o mês de fevereiro, entrando em votação no mês de março.

            O referido PL vem chamando bastante atenção de todos, não só em face das tragédias recentes relacionadas com o uso indevido e indiscriminado dos recursos naturais, como também pelo polêmico embate entre ambientalistas e ONGs e a forte bancada dos ruralistas da Câmara Federal.

            No projeto, além da anistia aos desmatadores, prevê ainda algumas alterações que merecem ser abordadas pelas graves consequências que poderão gerar para o bem estar da população e de suas gerações futuras, entre elas destacamos:

            a) Redução em mais de 1 milhão de quilômetros quadrados da Amazônia Legal;
            b) Autonomia aos Estados da Federação para criação de regras de desmatamento;
            c) Redução das Reservas Legais no Cerrado de 35% para 20%;
            d) A inclusão das Áreas de Preservação Permanentes no cálculo da Reserva Legal;
            d) A introdução de espécies vegetais exóticas em até 50% das Reservas Legais;
        e) Compensação ambiental em qualquer lugar do país, ou seja, fora das áreas devastadas;
            f) Os topos dos morros deixarão de ser consideradas Áreas de Proteção Permanente.

O que vamos perder com a aprovação do PL?

            Segundo o Inpe – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a Amazônia sofreu um deflorestamento de mais 520 mil km² de 1978 a 1998. Pesquisas realizadas pelo próprio governo apontaram que o desmatamento anual da Amazônia cresceu 34% de 1992 a 1994. A taxa anual, que era de pouco mais de 11.000 km² em 1991, já ultrapassou 14.800 km².

            Os grandes causadores dessa degradação ambiental progressiva são as atividades agropastoris não sustentáveis e a exploração de madeira (80% dela ilegal, contando inclusive, só no Amazonas, com 22 madeireiras estrangeiras), o desperdício de madeira no sistema em que está sendo explorado (madeira derrubada e não aproveitada) gira em torno de 60% a 70% . 
    
            Ainda com relação a floresta, conforme estudos sobre os ciclos do carbono do Experimento Biosfera-Atmosfera em Larga Escala (LBA em inglês) e os estudos de inventário florestal realizado pela comunidade científica, a floresta intacta tem o poder de absorver de 0,8 a 7 toneladas de carbono por hectare. Com uma conta rápida, afora o que já foi desmatado, e levando em conta uma média de 3,9 t/c por hectare, deixaríamos de resgatar, nos 1 milhão de Km² da redução da área na Amazônia Legal, 390 milhões de toneladas de carbono. Esse volume de carbono, na Bolsa de Chicago (CCX Carbon Financial Instrument) equivale em torno de 1,959 bilhões de dólares.

            Com relação a autonomia dos estados para legislar sobre a permissão de desmatamento, o efeito pode ser nefasto, pois nesse caso, vai servir de incentivo a uma guerra entre os estados pelo desenvolvimento às custas do meio ambiente.

            Sobre a redução da área de proteção do Cerrado, segundo a ONG WWF-Brasil, a destruição e a fragmentação de habitats consistem, atualmente, na maior ameaça à integridade desse bioma: 60% da área total é destinada à pecuária e 6% aos grãos, principalmente soja. De fato, cerca de 80% do Cerrado já foi modificado pelo homem por causa da expansão agropecuária, urbana e construção de estradas - aproximadamente 40% conserva parcialmente suas características iniciais e outros 40% já as perderam totalmente. Somente 19,15% correspondem a áreas nas quais a vegetação original ainda está em bom estado.

            No Cerrado, historicamente, a expansão agropastoril e o extrativismo mineral têm se caracterizado por um modelo predatório. No caso da pecuária, a mesma ainda se encontra alicerçada no sistema extensivo de produção através de grandes latifúndios, quanto à produção de grãos, tem base no desperdício do precário sistema de monocultura agrícola (só para se ter uma idéia da deficiência do sistema produtivo agrícola brasileiro, perde-se cerca de quase 20% de grãos de arroz do plantio até nossa mesa de refeição, segundo levantamentos, 30% dos hortifruti do Ceagesp de São Paulo vão para o lixo).

            Em se tratando da inclusão das APPs – Áreas de Preservação Permanente no cálculo das áreas de RL - Reserva Legal, significa que, por exemplo, se 10% de um imóvel rural em região não amazônica for coberta por vegetação de preservação permanente, será necessário reservar apenas mais 10% da propriedade como RL, e não 20%, segundo a regra ainda em vigor. Se as APPs cobrirem 20% ou mais do imóvel não será necessária a manutenção da Reserva Legal. Aqui vemos uma forma de diminuir as áreas protegidas e consequêntemente a biodiversidade de todos os biomas existentes no país.

            Quanto a introdução de vegetação exótica, ou melhor, a supressão de vegetações nativas, segundo todas as literaturas sobre meio ambiente, é uma das formas que coloca em risco a biodiversidade. É um incentivo a extinção de variedades que ainda sequer foram estudadas, uma perda econômica inestimável. Convido o amigo leitor a visitar uma área de reflorestamento com o eucalipto, por exemplo, você verá que os únicos animais encontrados nesse tipo de bioma é a formiga saúva, o que é lógico, pois o eucalipto não é uma vegetação nativa, portanto, toda a cadeia de vida interligada harmonicamente com a floresta nativa, praticamente se extingue.

O nó cego

            E o que dizer sobre a compensação ambiental em qualquer área, e os topos dos morros deixarem de ser considerados APPs? Aqui temos uma situação bastante melindrosa, primeiro que a compensação não pode ser nem tão flexível, nem muito rígida, ou seja, tem regiões em que o estoque de terras não permitirá uma compensação na própria região, vamos fazer um exercício de imaginação: um proprietário rural no Tocantins, por exemplo, fazendo uma compensação em Rondônia ou Pará, é ilógico, assim como também é bastante ilógico querer que um produtor do entorno da Grande São Paulo faça sua compensação naquela região. Com relação aos topos de morro, é outro melindro, regiões em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, a muitos anos produzem maçãs e uvas nessas regiões, lembrando que essas áreas elevadas sob proteção também são estendidas às zonas urbanas, e aí vem o problema de moradia ou monumentos do próprio patrimônio cultural brasileiro (o caso de diversos bairros na grande Belo Horizonte e o Cristo Redentor no Pão de Açúcar no Rio de Janeiro, por exemplo), aqui o ideal seria um estudo mais aprofundado do tipo de solo dos morros para sua ocupação, sob risco de continuar os problemas de deslizamento de terras como os que ocorreram nas últimas chuvas.   

A realidade

            Nossa legislação que regulamenta as florestas (de 1934 e posteriormente a de 1965) embora criadas pelo Ministério da Agricultura e não por ambientalistas, de certa forma deu certo por que hoje nosso país é sem dúvida nenhuma um dos que têm a biodiversidade das mais bem conservadas do Planeta (somos o único país do mundo que conta com áreas de proteção ambiental legalmente instituídas). Não podemos alegar que nosso Código Florestal é ultrapassado, uma vez que desde sua criação, veio passando por diversas reformas, acompanhando a realidade de nossas épocas (é só fazer uma pesquisa em nosso arcabouço legal sobre o tema que será detectado várias mudanças - de 1978 até 2009).

            Não se pode afirmar que as áreas de preservação bem como sua recomposição são empecilhos para o desenvolvimento das atividades agropastoris (há inclusive incentivos por parte do governo que vem causando muitas polêmicas na seara jurídica). A exigência de 80% de RL na Amazônia Legal data desde 1996 (MP nº. 1.511 reforçada pela MP nº. 2.166 de 2001) e só recentemente foi que surgiu a obrigatoriedade da recomposição dessas áreas. Em pesquisa realizada pela USP – Universidade de São Paulo, em parceria com a Universidade sueca de Chalmers, detectaram que mesmo que todos os produtores rurais regularizassem suas terras, em obediência ao Código Florestal vigente (há um déficit de 43 milhões de hectares que precisam ser recompostos), ainda sobrariam 100 milhões de hectares de vegetação não protegidas ambientalmente, que podem sofrer desmatamento e, portanto a expansão da atividade agropastoril (uma área que equivale a quatro vezes o estado de São Paulo).

            Com relação a queda de produção de grãos, bem como a questão de produção de alimentos, alertamos para o fato de que cerca de 143 milhões de toneladas de grãos produzidos no Brasil tem o objetivo de abastecer o mercado externo, sendo que desse montante, a metade é para produção de ração animal (um patrimônio de todos – o meio ambiente, sendo utilizado para engorda de animais nos países desenvolvidos). Outro fato é o que já citamos acima em nosso artigo: o sistema de produção agropastoril é ultrapassado e com muitos desperdícios, é necessário mudanças em toda a cadeia produtiva do setor (plantio direto, consorciamento e rotação de culturas, sistema de pastoreio rotativo, modernização de máquinas agrícolas, eficiência em logística - distribuição e transporte, etc).

            Em se tratando de extrativismo vegetal, porque exportar a madeira bruta se podemos explorá-la de forma racional exportando mobiliário (industrializando), o que renderia grandes divisas externas para nosso país? Porque persistir em um modelo ultrapassado de exploração agrícola e pecuário se poderíamos obter maiores lucros produzindo mais carne e grãos por hectare com técnicas mais avançadas?

            Com toda essa realidade que expomos e por todas essas dúvidas suscitadas é que me vem à mente o título desse alerta: mudar o Código Florestal da forma como querem alguns grupos de interesse em nosso país, é como andar pra trás, dar um tiro no próprio pé...

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Preâmbulo do livro O Conflito entre Preservação Ambiental e Desenvolvimento Econômico

Com destaque, a Obra é o primeiro lançamento com
o selo do Word Council of Planetary Citizenship WCPC


         Ao examinamos a história da humanidade, percebemos que o mais complexo dos relacionamentos da Terra é o entre a sociedade humana e a natureza. O homem necessita da natureza para sua sobrevivência e quando falamos que precisamos salvar o meio ambiente, de certa forma estamos nos expressando de uma forma errada, pois o meio ambiente pode até se alterar, mas não morrerá, na realidade é a humanidade que não sobreviverá às mudanças radicais do meio em que vive, ou pelo menos sobreviverá em um mundo no qual não queira, em outras palavras: “o mundo não acaba, ele continuará sobrevivendo, o que poderá acabar é  homem”.

         Em nome de um desenvolvimento econômico desequilibrado, a nossa biosfera vem se modificando radicalmente ao ponto de prejudicar grandemente a humanidade. O homem vive em uma grande rede de interações como que em uma teia que o liga a toda existência da Terra, e o desenvolvimento impensado está desconectando o homem deste grande sistema natural, tornando verdadeira a ilusão que se criou ao longo de nossa evolução, de que as pessoas estão separadas da natureza, quando na realidade estamos intimamente ligados a ela. Nossa cultura ocidental se baseia na suposição equivocada de que somos uma forma de vida superior na Terra, que nos foi dado o domínio sobre todas as formas de vida no Planeta.

          Para psicólogos e psicanalistas um dos motivos que levaram a esse pensamento foi a idéia de alcançar a tão sonhada liberdade. Esse pensamento de ‘um ser fora do todo’ se agravou a partir da revolução industrial, quando criamos o motor a vapor e descobrimos o potencial do combustível fóssil – o surgimento da capacidade humana de transformar carbono fóssil em biomassa humana (o uso do petróleo aumentou o potencial de extração e processamento de outros bens naturais de forma mais rápida), o que foi uma grande ruptura dos ritmos primários de vida, que eram geralmente, regenerativos, e a partir daí a natureza pássou a ser considerada como um recurso essencial e infinito, criando uma concepção de desenvolvimento moldado em um crescimento e expansão ilimitados.

         Até alguns milhares de anos atrás, o homem vivia apenas do que a luz solar poderia oferecer, e a população humana no Planeta nunca ultrapassou a casa de um bilhão de pessoas. A partir da descoberta de outras fontes de energia, aliadas de uma revolução agrícola, a população chegou a dois bilhões em 1930, três bilhões em 1960, e nos dias atuais soma cerca de seis bilhões de pessoas, um crescimento exponencial vertiginoso da população humana. Nos últimos 40 anos a população humana praticamente dobrou em função da capacidade de maior produção de alimentos, vestuário, saneamento básico e avanços tecnológicos na área de saúde, melhorando a expectativa de vida do homem, um 'desenvolvimento' criado com recursos naturais que estão se esgotando.

         Cientistas afirmam que não passaremos da casa dos nove bilhões de pessoas, em função de que as famílias estão diminuindo, mas, mesmo assim, se levar-mos em conta essa progressão aritmética do crescimento populacional, e, consequentemente o consumo dessas pessoas, podemos afirmar que três bilhões a mais de pessoas na Terra, nos próximos 40 anos, ocasionarão uma pressão nos recursos naturais que poderá culminar no extermínio abrupto da raça humana.

         Entre meio a esse conflito hiper-complexo surge o importante papel do Direito, que deve se valer da aplicação de princípios como o da equidade, o da ponderação e da proporcionalidade, sem deixar se contaminar por dogmas e paradoxos, para equilibrar as relações entre os homens e o meio ambiente. Nos dias atuais, vivemos momentos de tensão, principalmente quando nos deparamos com certos conflitos de princípios fundamentais existentes em nosso ordenamento pátrio. Um exemplo desse impasse é o princípio da dignidade humana, presente não só na questão da proteção ambiental, como também no desenvolvimento econômico, ponto focal da abordagem de nosso trabalho.

         No contexto deste embate, é inconteste a necessidade de uma abordagem inter e transdisciplinar para compreensão da complexidade a qual o tema nos remete. Por isso estaremos pontuando algumas abordagens nos diversos campos dos saberes das ciências como forma de demonstrar o quanto elas em determinado momento se cruzam, principalmente em uma contemporaneidade que exige, mais do que nunca visto na história do homem, o 'caminhar junto' dos conhecimentos científicos.
    
         Em nossa proposta nos limitaremos a expor algumas correntes de pensamentos para uma reflexão de como o direito poderá, pelo menos, enquanto seu inconteste papel de ponderador das relações, cumprir a sua obrigação de forma mais eficiente, mesmo que para isso tenha que repensar  seus  conceitos   moldados   no  positivismo  e  no formalismo que ainda são as matrizes conceituais dominantes dessa ciência.

         Em nossa pesquisa fizemos a abordagem de alguns aspectos de ordem filosófica, epistemológica, exegética e deontológica inerentes ao artigo 170 e seu parágrafo VI da Constituição de 1988, trazendo a lume aspectos relevantes para uma tentativa de pacificar o “impasse” entre o desenvolvimento econômico e a proteção ambiental. Gostaríamos de deixar claro que seria muita pretensão de nossa parte querer esgotar o tema ou mesmo colocar de forma definitiva uma resolução desse conflito que classificamos como 'hiper-complexo'.

         A metodologia escolhida foi a de pesquisa bibliográfica com citação de algumas conceituações importantes de autores de diversas áreas do conhecimento humano. Partimos de um levantamento feito de forma dialética, analisando das partes para o todo, através de uma argumentação capaz de definir e distinguir claramente os conceitos envolvidos na discussão desse conflito. Salientamos ainda que estaremos colocando nas notas de rodapé os currículos sintéticos de alguns autores citados por se tratarem de cientistas de áreas distintas ao direito, bem como definimos por incluir um pequeno glossário ao final do trabalho elencando termos pouco conhecidos pelos profissionais do direito que foram marcados  por meio de uma pequena estrela de cinco pontas («) para diferenciá-los dos termos com asteriscos nas notas de rodapé. Na bibliografia abordaremos algumas obras para aprofundamento dos temas relacionados na pesquisa como uma forma de torná-lo mais rico sob o ponto de vista pedagógico, citando inclusive obras que embora não presentes no corpo da monografia foram lidas com o intuito de melhor embasarmos nosso trabalho.
   
         No Capítulo I fazemos uma abordagem necessária de apontamentos preliminares do pensamento sitêmico-complexo, elucidando uma pequena introdução conceitual seguida de três subtítulos apresentando uma síntese de três dos principais pensamentos que se destacam dentro da perspectiva desse tipo de estudo e intimamente ligados ao tema central de nossa pesquisa, a saber: a Ecologia Profunda de Fritjof Capra, a Ecologia Social sob o enfoque de Leonardo Boff e o Pensamento Complexo de Edgar Morin.

         No Capítulo II discorremos sobre as relações complexas e seu relacionamento com o direito, com quatro subtítulos tratando de apontamentos sobre o século da complexidade e a característica orgânica do direito, a importância do direito em um ambiente de complexidade, a interdisciplinaridade como ferramenta de resolução dos problemas complexos enfrentados pelo direito e por fim, o jusnaturalismo, os direitos fundamentais e suas complexidades.

         No Capítulo III, expomos de forma mais distinta a complexidade ambiental e econômica dividido em dois subtítulos, discorrendo primeiramente sobre a complexidade ambiental e a posteriori a complexidade econômica.

         No Capítulo IV, tratamos especificamente sobre o conflito relacionado entre a proteção ambiental e a ordem econômica, e a relação do direito nesse embate.

         No Capítulo V discorremos sobre uma alternativa para resolução desse conflito, a utilização da hermenêutica, em particular o princípio da ponderação, além da teoria da ecosocioeconomia de Ignacy Sachs, que vê na gestão negociada e na governança uma alternativa saneadora do problema.

         Por fim traremos algumas considerações finais, expondo de forma sintética uma conclusão inerente aos pontos abordados.

         Lembramos que pela importância e profundidade do tema, não só em seu contexto teórico como prático, o labor dessa pesquisa é de caráter introdutório, servindo como um dos pilares para uma futura pesquisa mais aprofundada.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O MITO DA CAVERNA E A MÍDIA TELEVISIVA




   O amor é um sentimento em extinção nos dias atuais. O verdadeiro amor é um sentimento humano e não se pode confundi-lo com apego. O apego é um sentimento ou obsessão por coisas e objetos, uma dependência seja ela física ou emocional.

    Vivemos em um sistema capitalista extremamente consumista, ao ponto das pessoas se esquecerem do amor básico, necessário para o fortalecimento do caráter e para consolidação da posição de ser humano, estou falando do amor próprio.

    As pessoas estão rifando aquilo em que acreditam em termos de valores, chegam a vender seu próprio corpo e por incrível que possa parecer, vendem até mesmo sua própria alma (neste sentido valores e ideais).

    Mas porque fazem isso? Essa atitude vem em função de uma inversão de valores que são apregoadas aos quatro cantos, principalmente pelos veículos de comunicação.

    E sobre essa inversão de valores impostos pelos veículos de comunicação, particularmente a TV, lembrei-me do mundo das idéias – o mito da caverna, que Platão ilustra em sua principal obra, A República. O referido texto pode ser analisado sobre dois pontos de vista, o epistemológico (relativo ao conhecimento) e o político, e é
justamente ao primeiro – conhecimento, que quero me ater a esse artigo.

    O filósofo imaginou uma caverna com homens acorrentados em seu interior desde criancinhas, de costas para a entrada da caverna e com o campo de visão voltado para a parede de fundo da caverna, a única visão do mundo que esses homens tinham eram as sombras projetadas nessa parede por uma fogueira. Quando um deles conseguiu
escapar das correntes e sair da caverna, vislumbrando a real imagem das coisas do mundo, ao retornar e contar aos amigos de prisão, os mesmos jamais acreditaram em suas palavras, considerando-o como um louco.

    Pois bem, a ilustração de Platão nos remete a refletir a realidade de nossa contemporaneidade, homens (no sentido de espécie e não de gênero) que passam a vida acorrentados, desde a infância em frente da TV...

    Para simplificar, Platão utilizou desta analogia para explicar que o conhecimento humano parte de dois mundos distintos, o mundo sensível (dos fenômenos) e o mundo inteligível (das idéias). O primeiro é ilusório, uma espécie de sombra do verdadeiro mundo, já o segundo a verdade imutável, a verdadeira realidade do mundo.

    O amigo leitor pode até defender a argumentação dos donos e dirigente de TV que afirmam que a ‘caixinha mágica’ mostra apenas a realidade, mas o que eles não dizem é qual a realidade que é mostrada. Explico. A TV é um veículo pequeno e fechado, de espaço caro, a mensagem tem que ser fragmentada ao máximo, e é aí aonde
mora o perigo. O problema não é a TV em sí, mas ‘quem a faz’, quem produz o seu conteúdo e quais os reais motivadores para programação X ou Y.

    A TV mostra sim uma realidade, mas mostra somente a realidade que é interessante para determinado(s) grupo(s) (aquele[s] que paga[m]), e não podemos esquecer, o domínio pela alienação são os piores e os mais eficazes grilhões para aprisionamento de seres que, em sua essência, nasceram dotados de espírito livre. O espírito humano é como um livro e nascemos com ele cheio de páginas em branco. O que seremos ou nos tornaremos depende do que for escrito nele no longo de nossas vidas... em seu conteúdo, sombras e realidades, mais um ou outro é que demonstrará a qualidade de seu conteúdo...

VÓS SOIS O SAL DA TERRA





Peço neste artigo ao amigo leitor que faça algo digno de um mago poderoso: que se transforme (pelo menos imaginariamente) em sal de cozinha. Mesmo sabendo que nossa imaginação seja limitada por paredes e grades , ela é capaz de coisas surpreendentes. Nossa imaginação pode ultrapassar e muito, as grades do que chamamos “realidade”, e estabelecer mundos diversos. Esses mundos imaginários poderão ser tão consistentes, ou mais, do que o mundo da "realidade", desde que a nossa imaginação criadora de mundos seja informada pelo rigor do nosso intelecto. É o que chamo de “imaginação rigorosa”, a mola mestra da atividade criadora do ser humano. O mundo da "realidade" apenas é uma criação da imaginação realizada por uma imperfeição rigorosa.                    

            Não será muito fácil o cumprimento dessa experiência, porque o mundo da "realidade", como já falei, nos prende entre milhares de paredes e grades. Com um esforço podemos, precariamente, ultrapassar a "realidade". E isso será possível se conseguirmos ser sal de cozinha por uns poucos instantes, não somente como aquele pó branco de gosto específico, que em sua ausência tudo fica 'sem gosto', insosso, e que em excesso fica intragável.

            Para que isso ocorra será necessário que esqueçamos tudo que sabemos a respeito dessa substância humilde que é o sal de cozinha, e para os mais 'sabidos', cloreto de sódio (NaCl), como sendo molécula de um átomo de sódio e outro de cloro. Porque isso não poderá servir de base para um mundo novo. É preciso intuir o sal de cozinha como existência, como sendo um cristal em forma de cubo, o que de fato, geometricamente,  ele é.

            Como sal, antes de tudo ‘somos cubo’. Seres que tendem a cristalizar-se em cubos. O resto do mundo, essa nossa circunstância dentro da qual tendemos para o cubo, é apenas o pano de fundo do processo da nossa cristalização, um pano de fundo altamente duvidoso.

            Cristalizamos, logo somos. O resto do mundo precisa legitimar-se ante o nosso processo cristalizador para tornar-se legitimamente "mundo". Há coisas que influem na nossa cristalização, e essas coisas serão chamadas de "realidade". Esta será a base da nossa ontologia (do grego "ontos" e "logos" ser e estudo, assim estudo do ser em sua essência). Há coisas que favorecem, e outras que prejudicam a nossa cristalização, há, portanto coisas "boas" e "nefastas". Nisto estará baseada a nossa ética. O cubo é a forma ideal e perfeita da nossa existência, é, portanto "belo” e outras formas como o dodecaedro, o retângulo, o triangulo, são formas imperfeitas, e outras, como a esfera, portanto anti-cristalina, são "feias".   A nossa estética será radicalmente cubista. Não resta dúvida de que o cubo, por ser a forma ideal, é a um tempo a suma realidade, a suma bondade e a suma beleza. Se conseguirmos cristalizarmo-nos em cubo, estaremos plenamente realizados, seremos seres perfeitos. A mera contemplação do cubo, com a sua simetria perfeita, com os seus seis quadrados perfeitamente dispostos, com a beleza dos seus cantos e o rigor dos seus ângulos, eleva a nossa existência estaticamente. O estudo das qualidades óticas, elétricas e mecânicas do cubo é o fundamento do conhecimento da realidade. A relação misteriosa entre os lados e a diagonais dos quadrados, e entre a superfície dos quadrados e o volume do cubo, desvenda a própria estrutura da realidade. O caráter matemático dessas relações, um caráter que tem a ver com a harmonia da música, enche-nos de espanto sagrado, um espanto que nos faz vibrar até ao íntimo da nossa organização molecular, e que é, ela também, uma organização cubista. Em resumo: somos projetados em forma de cubo. O cubo é o nosso projeto, e o processo da nossa cristalização é a realização progressiva desse projeto. Se nos tornarmos cubo, teremos sido autenticamente nós mesmos. Mas, se decairmos no pó branco e amorfo que está jogado em qualquer canto da cozinha, teremos sido existências inautênticas e decadentes. Teremos traído o projeto do cubo.

            Nisso reside a nossa profunda problemática existencial  como sal de cozinha. Se decaímos em pó, somos inautênticos, um mero "a gente", perdão, "grão salino". Mas se nos cristalizamos em cubo, estaremos cumprindo nossa “missão”. Em outras palavras: fomos projetados para cá como cubos e estamos aqui para o cubo. A absurdidade da nossa existência está contida em germe no projeto que nos estabeleceu. Esta é a essência de nossa existência salina. E são justamente os melhores entre nós, os mais perfeitamente cristalizados, que fazem a diferença, ao contrário daqueles que, triturados  em      servirão de condimento numa sopa qualquer que será servida em uma refeição que ultrapassa a nossa imaginação salina.

            Somos, como sal de cozinha que somos, prisioneiros do mito do cubo, mas livres dentro dessa prisão que é o nosso mundo. Se e, quando nós tivermos nos cristalizados inteiramente, teremos realizado esse mundo, teremos esgotado as suas virtualidades, e isto será o "fim do mundo". Parará o tempo (a cristalização) e reinará a Eternidade. Teremos sido salvos. A revelação primordial e mítica do cubo é um acontecimento festivo. Nela o Ser resplandece festivamente.

            A nossa existência como sal, isto é, a nossa cristalização, pode ser a interpretação mais profunda do que está implícito no Sermão da Montanha, proferido pelo Mestre, (Mateus 5:13), que nos ensina: “Vós sois o sal da terra, e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens”.

            E para finalizar, uma última ‘tradução’: insípido quer dizer o que não tem gosto, sabor, ou, figurativamente, algo sem atrativos, sem espírito, sem interesse, sem graça.


quarta-feira, 22 de setembro de 2010

DOCUMENTÁRIO ILHA DAS FLORES



Como forma de dinamizar uma interdisciplinaridade entre as aulas de História, Geografia, Filosofia e Sociologia, sobre tudo incentivar temas para redação, os alunos do pré-vestibular do IEP trabalharam sobre o polêmico documentário Ilha das Flores. Clique acima e assista esse premiadíssimo documentário. 

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

RECONFIGURAÇÃO E SUSTENTABILIDADE: IDÉIAS E REFLEXÕES*



 Introdução a Administração, Globalização & Empresa 
(211 p.) já está em sua 4ª Edição e pode ser adquirido 
diretamente do autor, Prof. Santo Reni pelo e-mail da 
Editora IEP:  iepgurupi@hotmail.com


A terceira onda de Toffler marca uma economia em que o conhecimento é a principal forma de capital, e neste panorama, a persistência em um sistema econômico baseado na acumulação de capital - surgido com a Revolução Industrial na segunda metade do século XVIII, que direcionou a uma economia com base nos princípios do ganho ilimitado e do racionalismo econômico, ainda faz parte do presente.

            Como exemplo dos esforços na tentativa de preservar antigas teorias na ‘era do conhecimento’, podemos citar o surgimento na década de 90, da Nasdaq - National Association of Securities Dealers Automated Quotations (bolsa de valores das empresas ponto com), que mergulhando   em  um  colapso  (maio  de  2001),  amargou dificuldades até hoje não superadas. Mais recentemente (2009) a fragilidade da economia globalizada ficou eminente com a ‘bolha’ do mercado imobiliário norte americano impulsionando uma crise econômica mundial comparada com a grande crise ocorrida na bolsa de NY em 1929 (até o fechamento dessa edição, nenhuma política de revisão sobre o mercado global de capitais fora proposta). Esses fatos demonstram a necessidade de se repensar o sistema econômico para um modelo menos vulnerável e capaz de atender as exigências do século XXI.

A era do conhecimento também aponta vulnerabilidades no modelo de sistema de produção em massa, alicerçado no reducionismo-mecanicista. A produção em massa aliada ao acúmulo de capital, fez com que se fossem explorados os recursos naturais de forma indiscriminada, desrespeitando a capacidade de resiliência do meio ambiente, ocasionando uma série de problemas irreversíveis à biosfera[1].

            Com relação a forma de produção de bens e serviços, há uma  maior  percepção  da  finitude  do capital ambiental, o que vem forçando uma condição de limitação dos processos, minimização do declínio do meio ambiente natural e utilização com mais eficácia da base dos recursos disponíveis.

No tocante a gestão empresarial, a necessidade de um melhor gerenciamento do capital intelectual, das competências e dos conhecimentos, vem marcando uma significativa mudança em todos os segmentos econômicos. Nos anos 90, o foco era uma postura defensiva e reativa que cada vez mais deve migrar para uma postura ativa e criativa. 
            A concorrência no mercado globalizado redirecionou o poder para as mãos do mercado consumidor (comprador), surgindo com isso um mercado bastante exigente com relação não só a postura socioambiental das corporações, como também aos direitos do consumidor em tudo o que se faz, como regulador das relações econômicas. Neste novo século o fortalecimento dos direitos transindividuais[2] e transnacionais[3] serão cada vez mais evidenciados, buscando reduzir a degradação global do meio ambiente, forçando uma racionalização na utilização dos recursos naturais.  
           
Atualmente, o capital social, constituído por redes, ONGs e pelo compartilhamento de confiança entre as pessoas, passaram a ter uma percepção mais concreta quanto ao seu valor econômico, e a interelação dos atores nesse cenário vem consolidando a maneira como se interagem, tornando-se um fator importante do desenvolvimento econômico.

            O diferencial entre crescimento economico e desenvolvimento economico está mais evidente. O primeiro está mergulhado em uma grande controvérsia (como gerenciar bens finitos para garantir aumentos de lucros constantes e infinitos?), já o segundo é mais lógico e sem dúvida a única solução para enfrentar os problemas dessa nova era: uma economia mais ética com vistas a melhorar a distribuição de recursos e capitais. A realidade da economia aponta que somente o crescimento quantitativo não é suficiente, e o desafio está justamente em colocar em sintonia a sustentabilidade no atual sistema capitalista, uma vez que só é possível a implantação de um modelo sustentável através de políticas eficazes de melhoria na distribuição das riquezas, incluindo aqui as tecnologias.

A gestão ambiental e a responsabilidade social tornaram-se imprescendíveis na capacitação e criação de condições de competitividade da atividade produtiva, independentemente do segmento econômico ao qual fazem parte.

O panorama de redes interligadas como nos ensina Capra (2000), culminou, conforme Morin (2002), no lançamento do homem para a complexa compreensão de uma ‘ecodimensão’. Esta interdependência dos saberes reflete não só no pensamento como também em todas as atividades humanas direta e indiretamente influenciadas e influenciáveis pela, e, na economia e no sistema produtivo como um todo.

             A ‘ecossocioeconomia’ de Sachs (2007), a ‘democracia econômica’ de Dowbor (2008), o ‘contrato natural’ de Serres (1990) e o reencontro entre a ética e a econômica, segundo Sem (1999), são algumas das pistas teóricas e empíricas para compreensão da complexa sociedade de risco[4] do século XXI e uma melhor adequação do mercado e seus agentes neste novo panorama globalizado.



* Título do Capítulo 8.9, publicado no livro Introdução a Administração, Globalização & Empresa, de autoria do Prof. Santo Reni Florão, 4ª ed., 2010. Gurupi: IEP.    


[1] Denomina-se biosfera a região caracterizada pelo conjunto de fatores bióticos (seres vivos) e abióticos (clima, ar, água, solo, etc.) que possibilitam a manutenção da vida no planeta. 
que vem forçando uma condição de limitação dos processos, minimização do declínio do meio ambiente natural e utilização com mais eficácia da base dos recursos disponíveis.

[2] Os direitos transindividuais, também conhecido como metaindividuais e/ou difusos, são direitos cuja natureza do objeto é indivisível, ou seja, ao mesmo tempo em que pertence a todos, ninguém em específico o possui. Seus titulares são pessoas indeterminadas e ligadas a circunstâncias de fato. Como exemplo podemos citar a legislação ambiental e o Código de Defesa do Consumidor.

[3] Direitos transnacionais são aqueles cuja abrangência de aplicabilidade ultrapassa os limites territoriais de uma determinada nação. Também conhecidos como direitos internacionais, podemos citar os tratados e convenções sobre direitos humanos, proteção ambiental, etc.

[4] A denominação ‘sociedade de risco’, de autoria de Ulrich Beck, é conceituada em sua obra, La Sociedad del Riesgo – Hacia uma nueva modernidad, publicada pela editora espanhola Paidós.  

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

DOCUMENTÁRIO A HISTÓRIA DAS COISAS


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A turma do pré-vestibular do IEP discutiu o documentário História das coisas na aula de Conhecimentos Gerais e Atualidades.  (01.09.2010)